O resultado
Lula 51,8% × Flávio 48,2% no 2º turno. No 1º turno, Flávio estava na frente (47,0% × 45,2%). 206 municípios passaram de Flávio para Lula entre os turnos; só 1 fez o caminho inverso.
De onde veio a virada
Na disputa direta, a fatia de Lula na soma dos dois subiu +2,8 pontos. Nos votos válidos, contando quem votou em outros no 1º turno, Lula cresceu +6,6.
Como ler os números desta página
r (correlação de Pearson) vai de −1 a +1 e mostra se duas coisas sobem juntas. Perto de 0: nenhuma relação. Até 0,3: fraca. De 0,3 a 0,5: moderada. Acima de 0,5: forte. Importância: os modelos dividem 100 pontos entre os fatores conforme o quanto cada um ajuda a prever o resultado; usamos a média de 9 modelos. Em todas as medidas, positivo é a favor de Lula.
Análise geral
Lula cresceu em quase todo o país entre os turnos, mas não por igual. Na fatia, o ganho foi maior no Sudeste (+3,7), no Centro-Oeste (+3,4) e no Sul (+3,2) do que no Norte (+2,4) e no Nordeste (+2,0), onde ele já tinha votação muito alta no 1º turno e sobrava pouco eleitor para conquistar.
Quando colocamos todos os fatores juntos (renda, classe, escolaridade, cor, sexo e idade do eleitorado, religião, tamanho da cidade e região) e pedimos a 9 modelos para explicar onde Lula ganhou mais fatia, eles acertam de 53% a 65% da variação entre municípios. O resto depende de coisas que os dados públicos não medem: campanha local, lideranças, notícias, conversas. As pistas mais úteis são a proporção da classe C (16 de 100 pontos), estar no Nordeste (12, que puxa o ganho para baixo, pelo motivo do teto), a proporção de mulheres no eleitorado (11) e a de brancos (10). A religião evangélica aparece em 8º lugar entre 25 (4,5 pontos). Importância diz quanto um fator ajuda a prever, não para que lado empurra; na aba Modelos, a seta ao lado de cada fator mostra o lado.
Quando a medida é o ganho nos votos válidos, que inclui quem votou em outros candidatos no 1º turno, as pistas mudam de ordem. A primeira passa a ser estar numa metrópole (11 de 100 pontos), seguida do Nordeste (9), da proporção de mulheres no eleitorado (9) e da de espíritas (8). Nessa medida, evangélicos (6) e católicos (6) aparecem em 7º e 8º lugar. A ideologia revelada no voto para vereador, sozinha, explica pouco (no máximo 31% do ganho de fatia).
O peso do voto evangélico
Os municípios com mais evangélicos são, em geral, território de Flávio: a correlação entre % de evangélicos e a margem de Lula no 2º turno é r = −0,39. Mesmo assim, foi nesses lugares que Lula mais avançou entre os turnos. Dividindo o eleitorado em cinco partes iguais, do menos para o mais evangélico, o ganho de fatia sobe: +1,8, +2,8, +3,0, +3,2, +3,3. A correlação com o ganho de fatia é moderada (r = 0,36). Com o ganho nos válidos é fraca (r = 0,17), porque os válidos incluem o eleitor dos outros candidatos.
A subida tem limite: cresce até a faixa de 35–40% de evangélicos (+3,4) e cai nos poucos municípios onde mais da metade é evangélica (+1,8). Dentro das cidades, a relação fica mais forte: Rio de Janeiro 0,86 e Goiânia 0,69, bairro a bairro.
Ganho de Lula por faixa de evangélicos
| Evangélicos no município | Munic. | Ganho de fatia 1º→2º 2026 | Ganho nos válidos 1º→2º 2026 |
|---|---|---|---|
| 0–10% | 499 | +1,4 | +4,8 |
| 10–15% | 882 | +1,6 | +5,4 |
| 15–20% | 1.058 | +2,1 | +5,8 |
| 20–25% | 933 | +2,8 | +7,2 |
| 25–30% | 870 | +3,1 | +6,9 |
| 30–35% | 629 | +3,2 | +6,8 |
| 35–40% | 351 | +3,4 | +6,9 |
| 40–50% | 291 | +3,1 | +6,0 |
| 50+% | 57 | +1,8 | +4,6 |
Mas há três cuidados importantes. Primeiro, bairro evangélico costuma ser também bairro de periferia, de renda mais baixa. Dentro das cidades, as duas coisas andam tão juntas que os dados de urna não conseguem separar quanto do ganho de Lula se deve à fé e quanto se deve à renda. Nos modelos com os municípios do país, quando renda, classe, cor e região entram juntas, a religião perde força: fica em 8º lugar. Segundo, o mapa mostra lugares, não pessoas. Se Lula cresceu num bairro evangélico, os votos novos podem ter vindo dos evangélicos ou dos vizinhos. Um modelo de inferência ecológica estima que, de cada 100 votos que Lula ganhou entre os turnos, cerca de 30 vieram de evangélicos, que são cerca de 26 em cada 100 eleitores: um pouco mais do que o seu tamanho, não uma onda. Terceiro, as pesquisas de opinião vão na mesma direção: entre os evangélicos, Lula ficou na mesma faixa nos dois turnos (de 27% a 37%, conforme o instituto).
Em resumo: o voto evangélico continua majoritariamente com o bolsonarismo, mas os territórios evangélicos das periferias urbanas foram onde o crescimento de Lula mais apareceu. Fé e perfil do lugar andam juntos, e por enquanto não dá para dizer qual dos dois pesa mais. Uma pista adicional: onde há mais evangélicos sem denominação declarada (uma aproximação dos desigrejados, com base em 2010), o ganho de Lula foi maior (r = 0,56).
O espelho católico
Com os católicos, a relação se inverte, e é uma das mais fortes do levantamento. Quanto mais católico o município, menos Lula ganhou entre os turnos (r = −0,44, tanto na fatia quanto nos válidos). Onde menos de 40% são católicos, a fatia de Lula subiu +3,6; onde mais de 80% são católicos, só +1,8.
Nos votos válidos, o desenho é o mesmo: +6,7 pontos onde há menos de 40% de católicos e +4,9 onde há 80% ou mais. Nos modelos, a proporção de católicos fica em 8º ou 9º lugar entre 25 fatores (4 a 6 de 100 pontos), porque boa parte do efeito já é captada pela região: os lugares mais católicos ficam concentrados no interior do Nordeste e do Sul.
Ganho de Lula por faixa de católicos
| Católicos no município | Munic. | Ganho de fatia 1º→2º 2026 | Ganho nos válidos 1º→2º 2026 |
|---|---|---|---|
| 0–40% | 212 | +3,6 | +6,7 |
| 40–45% | 199 | +3,4 | +7,4 |
| 45–50% | 280 | +3,2 | +7,2 |
| 50–55% | 386 | +3,2 | +7,5 |
| 55–60% | 482 | +3,1 | +6,6 |
| 60–65% | 615 | +3,0 | +6,0 |
| 65–70% | 620 | +2,8 | +5,7 |
| 70–80% | 1.401 | +2,4 | +5,5 |
| 80+% | 1.375 | +1,8 | +4,9 |
Parte é geografia: os lugares muito católicos são pequenas cidades do interior, no Nordeste (onde Lula já tinha votação altíssima) e no Sul. Mas não é só isso. Comparando municípios dentro da mesma região, a relação continua (r = −0,36 com o ganho nos válidos). E nas capitais, bairro a bairro, os mais católicos também deram menos ganho de fatia a Lula (Rio −0,73; Goiânia −0,54).
O retrato que fica: entre os turnos, Lula cresceu mais nas periferias urbanas, mais evangélicas, e menos no interior católico. Isso não quer dizer que católicos votaram em Flávio ou que evangélicos votaram em Lula. Quer dizer que o tipo de lugar onde cada grupo é maioria respondeu de forma diferente no 2º turno.
Três metrópoles
Rio de Janeiro: a Baixada Fluminense deu a Lula de +4,8 a +5,0 pontos de fatia (Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti), contra +2,6 em Niterói e +2,8 em Maricá. Nos bairros da capital, a correlação entre % de evangélicos e ganho de fatia é 0,86. São Paulo: na capital, +3,0 de fatia e +8,9 nos válidos; bairro a bairro, a correlação com evangélicos é 0,71 na fatia. Goiânia: a capital com a maior alta de Lula nos válidos (+9,1), mas só +3,3 na fatia, porque muita gente lá tinha votado em outros candidatos no 1º turno; na região metropolitana, Aparecida de Goiânia, Senador Canedo, Trindade e Goianira ficaram entre +10,7 e +11,3 nos válidos.
O que os dados não dizem
Tudo aqui compara lugares, não pessoas. Uma correlação forte entre “bairro evangélico” e “ganho de Lula” é compatível com evangélicos virando voto, com seus vizinhos virando voto, ou com os dois. Os números da religião vêm do Censo 2022; os do voto, dos boletins de urna do TSE. Os detalhes estão nas outras abas e em Método.
Conclusão
Pode ser que parte do voto evangélico tenha virado a favor de Lula entre os turnos. Mas os dados de urna não conseguem confirmar isso, porque mostram o resultado de cada lugar, e não o voto de cada pessoa. Para saber se os evangélicos, como pessoas, mudaram de lado, é preciso uma pesquisa que pergunte diretamente ao eleitor em quem votou em cada turno.
O que dá para afirmar desde já: entre o 1º e o 2º turno, os territórios mais evangélicos deram mais ganho a Lula, e nos territórios mais católicos Lula cresceu menos. A correlação com o ganho de fatia é r = +0,37 para evangélicos e −0,44 para católicos; com o ganho nos válidos, +0,17 e −0,44. Quando renda, classe, gênero e região entram na conta, a religião continua aparecendo, mas não está entre os primeiros fatores. Quem, dentro desses lugares, fez o movimento é a pergunta que as próximas pesquisas vão ajudar a responder.
Capitais e cidades com mais de 500 mil eleitores
Ranking
Municípios
Por região: % evangélicos → medida escolhida
Ajuste linear ponderado pelos votos válidos dentro de cada região, nos municípios. r = Pearson; inclinação em pontos a cada +10 pp de evangélicos.
Inferência ecológica: fatia de Lula entre evangélicos e não evangélicos
Dentro das 47 cidades: bairros
As 47 cidades: correlação entre % de evangélicos do bairro e a medida escolhida
Municípios
Por região: % católicos → medida escolhida
Ajuste linear ponderado pelos votos válidos dentro de cada região, nos municípios. r = Pearson; inclinação em pontos a cada +10 pp de católicos.
Inferência ecológica: fatia de Lula entre católicos e não católicos
Dentro das 47 cidades: bairros
As 47 cidades: correlação entre % de católicos do bairro e a medida escolhida
Municípios
Dentro das 47 cidades: bairros
As 47 cidades: correlação entre % do grupo no bairro e a medida escolhida
R² dos modelos (validação cruzada)
Importância média entre os modelos
Ideologia revelada no município × ganho de Lula
% dos votos válidos para vereador em 2024 dados a partidos de esquerda (nota abaixo de 4,5), de centro (4,5 a 5,5) ou de direita (acima de 5,5) na escala de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023; 0 = esquerda, 10 = direita; 519 cientistas políticos). Cada ponto é um município com 5 mil ou mais votos válidos.