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Receita para a perda da fé: como o bolsonarismo evangélico repete, passo a passo, o roteiro que esvaziou igrejas mundo afora – um ensaio preliminar

Imagem ilustrativa, gerada por inteligência artificial. Composição conceitual que representa a aproximação entre lideranças políticas e religiosas no contexto do bolsonarismo evangélico. A cena não retrata um acontecimento real nem corresponde a um registro fotográfico de um evento específico. Receita para a perda da fé: como o bolsonarismo evangélico repete, passo a passo, o roteiro que esvaziou igrejas mundo afora – um ensaio em construção
Se você for evangélico, pode até não gostar do que vai ler, mas é o que os números dizem: ser evangélico é um dos fatores mais fortes para prever se alguém vota no bolsonarismo ou não. Em 2018 e em 2022, um evangélico teve cerca de 50% mais chances de votar em Bolsonaro do que um brasileiro que não é evangélico (DATAFOLHA, 2018; TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2018; DATAFOLHA, 2022 apud CARTACAPITAL, 2022) [25, 86, 17]. Nos modelos com controles sociodemográficos, ser evangélico ainda aumenta em cerca de 40% a probabilidade de voto em Bolsonaro (LÓPEZ, 2023) [54]. Nenhum outro pertencimento religioso prediz o voto com essa força. E as pesquisas especializadas no assunto estão abarrotadas de evidências que explicam essa relação.
Em 2018, cerca de 70% dos evangélicos declararam voto em Bolsonaro (DATAFOLHA, 2018 apud ALVES, 2018) [25, 3], contra 55% dos votos válidos que ele obteve no eleitorado total (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2018) [86]. A vantagem de 11,6 milhões de votos que abriu entre os evangélicos foi maior do que a diferença final entre os dois candidatos, o que fez da mobilização desse grupo um dos fatores determinantes da vitória (ALVES, 2018) [3].
Rennó (2020) [74] encontra o voto em Bolsonaro associado à religiosidade. Layton et al. (2021) [51] descrevem 2018 como o momento em que a religião evangélica virou um divisor demográfico, e situam essa virada na longa mobilização política das igrejas brasileiras. Em 2022 o padrão se manteve: na véspera do 2º turno, cerca de 65% dos evangélicos declaravam voto em Bolsonaro e 31% em Lula (DATAFOLHA, 2022 apud AL JAZEERA, 2022; CARTACAPITAL, 2022) [2, 17], enquanto no eleitorado geral o bolsonarismo obteve 49,1% dos votos válidos (TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL, 2022) [86]. Além disso, 16% dos evangélicos entrevistados assumiram um fato incômodo: terem recebido orientação de pastores para votar em Bolsonaro (DATAFOLHA, 2022 apud CARTACAPITAL, 2022) [17].
Para mim, estes dados não são apenas descrições numéricas. Eles fazem parte de uma realidade próxima e muito palpável. Sou filho, neto, bisneto e trineto de cristãos batistas. Cresci neste ambiente em contato com diversas camadas do mundo evangélico. E não são raros os casos que ouço de pastores e líderes assediando suas ovelhas para que votem no bolsonarismo neste ciclo eleitoral de 2026.
Há pouco tempo, inclusive, minha própria mãe ligou-me extremamente aborrecida. Ela, eleitora de Lula, teve que passar parte do culto ouvindo seu pastor defender do púlpito que quem vota em qualquer candidato de esquerda (senha para Lula) precisa se converter — em bom evangeliquês, ele estava dizendo que quem vota na esquerda não é um verdadeiro cristão.
“Ele mudou completamente”, minha mãe me relatou. “De repente, aquele homem geralmente manso se transformou num poço de ira, dando socos até no púlpito da igreja”. Eu a consolei como pude, sem deixar de ficar, eu mesmo, com o coração entristecido por saber que alguém teve sua fé questionada porque decidiu optar eleitoralmente por uma proposta que tem na sua base o cuidado com os mais pobres.
Algo não vai bem no cristianismo evangélico brasileiro.
Mas o que me inquieta não é apenas o que estamos vendo no presente, mas também qual será a colheita futura. Quais sementes estão sendo plantadas. E em última instância, me pergunto:
O que acontece com uma igreja depois que ela vira fator relevante para se prever o voto de seus membros?
A história tem uma resposta, e ela não é boa. Na verdade, a associação entre evangélicos e bolsonarismo pode ser uma causa decisiva para o fim do evangelicalismo em um futuro não tão distante.
O que a história ensina sobre igrejas que tentam controlar o Estado
País de Gales: do avivamento de 1905 a um vale de incredulidade em 2021
Em 1905, o País de Gales, vizinho da Inglaterra e parte do Reino Unido, chegava ao ápice de um grande avivamento. Igrejas não estatais como metodistas, batistas, congregacionais e presbiterianas estavam abarrotadas. A cultura destas denominações abrangia escola dominical, corais, festivais de poesia e canto, sociedades que promoviam a abstinência do álcool e até mesmo jornais.
Estima-se que este avivamento de 1904–05, liderado por Evan Roberts, um ex-mineiro metodista de 26 anos, tenha convertido cerca de 100 mil pessoas, segundo a contagem mensal que o jornal Western Mail manteve até o fim de 1905 (CHURCH GROWTH MODELLING, s.d.; METHODIST EVANGELICALS TOGETHER, s.d.) [20, 57].
Tudo parecia bem, até que esses grupos evangélicos viraram marca de identidade nacional e desenvolveram um braço político.
Passaram a controlar o Partido Liberal no País de Gales, a promover leis de abstinência de álcool e o controle sobre a educação. Nessa agenda, impuseram a Lei de Fechamento Dominical de 1881, que proibiu a venda de bebidas aos domingos, lideraram a campanha pelo fechamento de bares e pela restrição de licenças, e venceram sua grande batalha com a Lei da Igreja Galesa de 1914, que desestabeleceu a Igreja anglicana como oficial no país. Foi o auge: por volta de 1904–1914, até 75% da população frequentava regularmente essas denominações e igrejas.
Todavia, após o ápice, veio a queda. O declínio foi lento até 1960 e abrupto depois. Em 2001, 72% dos galeses se declaravam cristãos; em 2011, 58%; em 2021, 43,6%. Os sem religião foram de 19% em 2001 para 32,1% em 2011 e 46,5% em 2021, mais do que qualquer religião isolada (UNITED KINGDOM, 2022; WELSH GOVERNMENT, 2022) [88, 89].
O País de Gales vive hoje o declínio religioso mais rápido e profundo do Reino Unido, e essas denominações, antes vibrantes e populares, foram as mais atingidas: o que encontramos hoje são congregações envelhecidas, templos fechando, e a sobrevivência da própria religião em dúvida (CHAMBERS, s.d.) [18].
Especialmente nos vales de Blaenau Gwent, Caerphilly e Rhondda Cynon Taf, onde o avivamento de 1904–05 bateu com mais força e onde o fervor um dia encheu capelas metodistas, batistas, congregacionais e presbiterianas, os sem religião chegam atualmente a quase 57% da população: a proporção mais alta de toda a Inglaterra e do País de Gales (UNITED KINGDOM, 2022; WELSH GOVERNMENT, 2022) [88, 89].
Grã-Bretanha: 1963
O que aconteceu nos vales galeses tem nome e data na obra do historiador Callum Brown, que propõe a tese mais provocadora da literatura: a secularização britânica não foi um processo longo e gradual, causado por urbanização e industrialização, mas algo recente e rápido.
“Aconteceu bem de repente em 1963.” (BROWN, 2001, p. 1) [15]
O argumento de Brown é que a Grã-Bretanha era cristã até os anos 1950 não porque todos iam à igreja, mas porque a “narrativa evangélica” (conversão, pecado, respeitabilidade) era o discurso pelo qual as pessoas construíam sua identidade. Houve até crescimento institucional entre 1945 e 1958, com a cruzada de Billy Graham em Londres (1954) no meio.
O centro da tese de Brown é o vínculo entre feminilidade e piedade. Lendo biografias, sermões e revistas femininas publicados entre 1800 e 1950, ele mostra que o discurso evangélico fazia da mulher a guardiã natural da fé e da respeitabilidade: era dela a tarefa de converter o marido pecador e beberrão e de transmitir a religião aos filhos. Ser respeitável e ser piedosa eram, para a mulher, a mesma coisa. Daí o desfecho: quando a emancipação dos anos 1960 (trabalho fora de casa, pílula, divórcio) ofereceu às mulheres identidades que não passavam mais pela (provavelmente angustiante) piedade, o vínculo se rompeu. E, como eram elas que transmitiam a fé, a transmissão parou numa única geração (BROWN, 2001) [15].
O mecanismo proposto por Brown ainda pede mais dados, e seus críticos (Hugh McLeod, Jeremy Morris e outros) contestam a data e a explicação, embora não o fato: a Grã-Bretanha é hoje uma das sociedades menos religiosas do Ocidente. Mas, num primeiro olhar, o quadro que ele descreve sugere uma conclusão: a religiosidade britânica era sustentada mais pela cultura e pelo Estado do que por uma experiência real com Cristo. Quando a cultura mudou e o Estado deixou de dar sustentação, restou o vazio sobre o qual ela se alicerçava, e a fé minguou em uma geração.
O ponto para o Brasil é o mecanismo: a religião que se fez guardiã da moral sexual e da respeitabilidade perdeu uma geração para quem essa moral deixou de fazer sentido. Não foi o ateísmo que esvaziou as capelas, foi a fadiga com uma religião baseada na cultura, na moralidade sexual e na imposição do Estado.
Holanda: política confessional que se desfaz diante do pluralismo
A Holanda foi o exemplo mais bem-sucedido de política cristã organizada no mundo protestante, e, até os anos 1950, parecia ter imunizado o país contra a secularização: a frequência à igreja era das mais altas da Europa. Igrejas protestantes tinham seu próprio partido, sindicato, escola primária e secundária, universidade (a Universidade Livre de Amsterdã, calvinista), hospital, emissora de rádio e depois de TV, jornal, clube de futebol, cooperativa agrícola, caixa de poupança, associação de patrões, até o açougue e o padeiro. Havia financiamento público integral e igual para escolas confessionais. Os partidos confessionais tiveram juntos maioria parlamentar de 1918 a 1967 e participaram de todos os governos.
O processo de secularização dos anos 1960 derrubou tudo em uma geração. Mais uma vez, bastaram pequenos movimentos (como acesso à TV e exposição a outras formas de pensar e viver) para que a religiosidade apoiada na estrutura do Estado e no controle de aspectos da cultura ruísse em tempo recorde.
Os dados do CBS (agência estatística) estimaram que em 2010, 45% dos holandeses com 15 anos ou mais não pertenciam a nenhum grupo religioso. Em 2020, 55%. Em 2021, 58%. Só 12 a 13% da população vai a um culto ao menos uma vez por mês (NETHERLANDS, 2022) [58].
Entre os jovens de 18 a 25 anos, mais de dois terços não têm religião (NL TIMES, 2025) [62]. E a confiança nas instituições religiosas (30%) é a mais baixa de todas as instituições medidas, abaixo da Justiça, da polícia e do exército (NL TIMES, 2023) [61].
O que sobrou foi uma carcaça institucional sem o conteúdo: a Holanda ainda tem escolas calvinistas financiadas pelo Estado, frequentadas por crianças sem religião.
Suécia: a igreja protestante que reprimiu o avivamento
Na Suécia o roteiro se inverte: foi a igreja luterana de Estado que perseguiu a efervescência. Desde a Reforma, pertencer a outra confissão era crime: a blasfêmia podia ser punida com a morte; a frequência ao culto era obrigatória; as crianças tinham de ser batizadas em oito dias; e as crenças dos cidadãos eram verificadas em exames domiciliares conduzidos pelo pároco.
Quando o pietismo, movimento de renovação que valorizava a fé pessoal e a leitura da Bíblia em casa, ganhou força, o Estado respondeu com o Konventikelplakat (Edito contra os Conventículos) de 1726, que proibiu qualquer reunião religiosa fora da supervisão da Igreja da Suécia. A lei vigorou até 1858. Apostatar da Igreja implicava banimento e perda de direitos civis. O direito incondicional de deixar a Igreja do Estado só chegou em 1951 (SEA, 2026; WESTIN, 1958) [79, 91].
No fim de 2024 a Igreja da Suécia tinha 51,4% da população (SVENSKA KYRKAN, 2025) [82], contra mais de 80% no início dos anos 2000 (AFFÄRSVÄRLDEN, s.d.) [1]. A projeção da própria Igreja é de 45% em 2030 (SVENSKA KYRKAN, s.d.) [83]. A perda se concentra na faixa de 25 a 35 anos, e as pesquisas internas mostram que apenas 14% dos ex-membros aceitam a fé cristã como descrição de sua visão de mundo (SVENSKA KYRKAN, 2023) [81]. A igreja de Estado, confrontada com suas contradições, tornou-se irrelevante para seus próprios membros.
Estados Unidos: os “sem religião” e a reação à direita religiosa
Nos EUA, a situação é diferente. É o caso mais próximo do Brasil, porque não há igreja de Estado: o que houve foi a fusão voluntária de um setor religioso com um partido. Religious Right (“direita religiosa”, também chamada “Cristianismo de direita”) é o nome que a ciência política americana dá à coalizão de organizações evangélicas conservadoras que, a partir do fim dos anos 1970, se mobilizou para eleger candidatos republicanos em torno de uma agenda moral (aborto, oração nas escolas, oposição aos direitos gays e, mais tarde, ao casamento igualitário).
Seus marcos são a Moral Majority de Jerry Falwell (1979), a Christian Coalition de Pat Robertson (1989) e o Family Research Council. O movimento transformou os evangélicos brancos, que até os anos 1970 votavam de forma dividida, na base mais fiel do Partido Republicano a partir de Ronald Reagan (1980). Parece familiar?
Bom, os dados desde a união entre o evangelicalismo americano e a direita partidária, numa crescente em direção a políticas ultraconservadoras, não diferem muito das experiências europeias. Ao longo dos anos, a categoria dos “sem religião” é a que mais cresce nos Estados Unidos.
Michael Hout e Claude Fischer, sociólogos de Berkeley, publicaram dois artigos sobre o fenômeno: o primeiro em 2002, na American Sociological Review, quando a tendência começava a aparecer (HOUT; FISCHER, 2002) [44], e o segundo em 2014, na Sociological Science, com dados de painel (HOUT; FISCHER, 2014) [45]. Eles mostraram que a proporção de adultos sem preferência religiosa foi de 7% em 1987 para 20% em 2012 (HOUT; FISCHER, 2014) [45]. Hoje, está perto de 29% (PEW RESEARCH CENTER, 2021a) [67].
A reação política contra a direita religiosa é um dos fatores que explicam este salto. As crenças não mudaram: a maioria dos sem religião é de desigrejados que continuavam crendo em Deus e na vida após a morte. O que abandonaram foi a participação em religião organizada. Hout e Fischer os chamam de “crentes sem igreja” (unchurched believers) (HOUT; FISCHER, 2014) [45]. A alta dos desigrejados acompanhou, com defasagem de cerca de cinco anos, a visibilidade da direita religiosa na mídia. Putnam e Campbell chamam essa reação de “tremor secundário” da religião americana (PUTNAM; CAMPBELL, 2010) [73].
Paul Djupe, Jacob Neiheisel e Anand Sokhey (2018) [27] refinaram o achado de Hout e Fischer. A explicação corrente dizia que a política dogmática da direita cristã afastou liberais e moderados da religião. Os autores mostram, com três bases de dados, que é preciso distinguir a identificação com uma tradição religiosa da filiação a uma congregação concreta, e que o que decide se alguém fica ou sai é a avaliação do encaixe político entre a pessoa e a sua igreja.
Em outras palavras: não é a existência da direita religiosa que afasta as pessoas, é descobrir que a própria congregação virou um comitê político do qual elas não fazem parte (DJUPE; NEIHEISEL; SOKHEY, 2018) [27].
Fischer definiu o raciocínio dos desigrejados em uma frase:
“Se religião é isso, me deixem de fora.” (FISCHER; HOUT, 2009, mesa-redonda Pew Research Center, tradução nossa) [35]
Católicos e Quebec: da prática intensa à queda
A região de Quebec, no Canadá, passou de sociedade mais católica do Ocidente a uma das menos praticantes em cerca de uma década. Em 1957, 88% dos católicos do Quebec diziam ir à missa toda semana, uma das taxas de frequência religiosa mais altas já registradas em uma sociedade moderna (BIBBY apud THE GLOBE AND MAIL, 2019) [84]. Entre 1961 e 1971, a prática religiosa caiu cerca de 50%, e os padres recém-ordenados foram de 120 em 1961 para 20 em 1981 (LEARN QUÉBEC, s.d.) [52]. A frequência mensal caiu de 48% em 1986 para 17% em 2011, e a semanal hoje fica em torno de 4%. Em 2021, apenas um terço dos quebequenses dizia que a religião é importante em sua vida (JENKINS, 2021) [49].
As conjecturas sobre o que ocorreu na região de Quebec, e principalmente sobre a velocidade em que ocorreu, são muitas. A maior parte delas passa pela rigorosidade moral e por um complexo e umbilical relacionamento entre igreja e Estado, com posterior repulsa à instituição religiosa. Uma frase muito utilizada para resumir o ocorrido foi:
“Os homens e mulheres de sua própria geração tinham sido ‘estranhamente traumatizados’ pelo catolicismo.”(GIGNAC, Jean-Paul, depoimento à Comissão Dumont, 1970, apud GAUVREAU, 2000, p. 803) [39]
Espanha: o nacional-catolicismo que gerou repulsa
Nacional-catolicismo é o nome do regime de identificação entre catolicismo e Estado instaurado após a vitória de Franco na Guerra Civil (1936–1939), que a hierarquia católica havia definido como Cruzada. A Concordata de 1953 selou o arranjo: a Igreja controlava a educação, a censura moral e o casamento, e em troca legitimava a ditadura. O Estado espanhol era confessional por lei até a Constituição de 1978 (PÉREZ-AGOTE, 2003) [66].
Em 1978, 90,5% dos espanhóis se declaravam católicos. Em 2021, 55,4%. No mesmo período, os não crentes (ateus, agnósticos e indiferentes somados) foram de 7,6% para 39,9%, cinco vezes mais (CIS apud MALDITA.ES, 2021) [55]. Em 2024 os católicos praticantes eram 17,8%, os não praticantes 36,6%, e ateus, agnósticos e indiferentes somavam 41% (CIS apud EVANGELICAL FOCUS, 2024) [29]. Entre os jovens de 18 a 24 anos, os católicos caíram de 78,1% em 1990 para 28,2% em 2021, quase 50 pontos em uma geração (CIS apud MALDITA.ES, 2021) [55].
Irlanda: o monopólio moral
Tom Inglis chamou de “monopólio moral” o poder que a Igreja católica exerceu na Irlanda independente (INGLIS, 1998) [46]. A Constituição de 1937 reconhecia a “posição especial” da Igreja (artigo revogado só em 1972). Contraceptivos foram ilegais até 1979, o divórcio até 1995, o aborto até 2018.
A Igreja administrava quase todas as escolas e hospitais, além das lavanderias Madalena para “mulheres caídas” e das escolas industriais para crianças pobres, onde ocorreram os abusos que vieram a público décadas depois.
O gatilho foi a exposição da distância entre o discurso e a prática. O Relatório Ryan (2009) documentou abuso sistemático nas escolas industriais. O Relatório Murphy (2009) provou o acobertamento pela arquidiocese de Dublin. Em 2014 veio o caso das crianças enterradas em Tuam. A resposta da sociedade foi plebiscitária: o casamento igualitário venceu o referendo de 2015 com 62% e a legalização do aborto venceu o de 2018 com 66%, ambos contra a orientação dos bispos (RTÉ, 2018; THE IRISH TIMES, 2018) [76, 85].
No âmbito da crença, os que marcavam “sem religião” eram menos de 0,1% em 1961; 5,9% em 2011; 9,8% em 2016; 14% em 2022 (IRELAND, 2023; NEWSTALK, 2023) [48, 59]. Os católicos declarados caíram de 91,6% em 1991 para 84,2% em 2011, 78,3% em 2016 e 69% em 2022 (IRELAND, 2023; OSV NEWS, 2023) [48, 65]. Entre os jovens de 25 a 29 anos, 53% são católicos e 26% não têm religião.
A questão
Cinco casos evangélicos e três casos católicos. No total, oito caminhos com teologias diferentes, organizações diferentes e visões diferentes sobre como expressar seu cristianismo. Mas todos os casos, inevitavelmente TODOS, funcionando sob um mesmo mecanismo e compartilhando um mesmo destino.
O mecanismo passa por uma combinação de dois ou mais dos ingredientes abaixo:
- Uma igreja que se identifica com um partido;
- Uma moral pública imposta aos que não a professam;
- A pretensão de controlar o Estado;
- E um evento que expõe a distância entre o discurso e a prática.
O destino aponta para um resultado comum a partir destes ingredientes:
A igreja que se tornou político-partidária e codependente do Estado perdeu seus fiéis em uma ou duas gerações.
O Brasil de 2026: a receita sendo seguida à risca
O pior de tudo: enquanto cada uma das experiências do Norte global possui características próprias, o evangelicalismo brasileiro parece combinar o pior de cada uma delas.
Da captura partidária, ele tem a fusão com o bolsonarismo.
Da hegemonia moral, ele tem a guerra cultural permanente sobre sexualidade, família e costumes, que foi exatamente o que esvaziou as denominações galesas e britânicas.
Do monopólio com coerção, ele tem a ambição: a teologia do domínio não pede espaço na praça pública, pede a própria praça para si.
É a apropriação do Estado por dentro e por fora. Pelo partido e pelo governo. Pelo orçamento e pela mobilização, num ecossistema de benefícios que circula em duas direções.
De cima para baixo, segundo os levantamentos citados a seguir, o governo Bolsonaro concedeu às igrejas o que nenhum governo anterior concedera com tanta clareza: a nomeação de um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo (André Mendonça), um ministério da Família entregue a uma pastora (Damares Alves), emendas parlamentares e nomeações distribuídas pela Frente Parlamentar Evangélica, a defesa da imunidade tributária dos templos e de dispensas fiscais sobre remessas e repasses, e reuniões sistemáticas de pastores no Planalto para renovar o apoio mútuo (FATONEWS, 2026; BISSIATI, 2025; GOLDSTEIN, 2020) [33, 13, 42].
A Frente Parlamentar Evangélica, com cerca de duzentos deputados, tornou-se, na análise de Goldstein, um ator fundamental da vida política e a base mais fiel do presidente no Congresso. O bloco, ainda segundo o autor, obteve cargos, verbas e a proteção de seus interesses econômicos, a começar pelo dízimo e pela isenção que o cerca (GOLDSTEIN, 2020) [42].
De baixo para cima, as igrejas entregam o voto. E aqui entra a pressão dos pastores, que a imprensa documentou com nomes e datas em 2022. Conforme reportagem do jornal Estado de Minas, houve lideranças que ameaçaram fiéis com punição divina pelo voto “errado”, roteiros de oração de 21 dias com o nome de Bolsonaro distribuídos pelo Conselho Apostólico Brasileiro, e uma resolução da Assembleia de Deus em Minas prevendo processo disciplinar para pastores que apoiassem candidatos “contrários aos princípios da igreja”, aprovada dias depois de o próprio Bolsonaro pregar na assembleia da denominação (ESTADO DE MINAS, 2022) [28].
Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, reproduzida pela Gazeta de São Paulo, fiéis relataram que a pregação política tomava o púlpito no início ou no fim do culto, sobretudo quando a cerimônia não era transmitida pela internet, e que a “senha” para convencer o eleitor era dizer que, se Lula ganhasse, os templos seriam fechados (FOLHA DE S.PAULO apud GAZETA DE SÃO PAULO, 2022) [37].
A mesma reportagem registra o efeito que este ensaio prevê: evangélicos que não apoiavam Bolsonaro, hostilizados dentro da própria igreja, deixaram de frequentar os templos ou migraram para congregações em que a política partidária não entrava na pregação. Um dos fiéis ouvidos resumiu a pregação que ouviu num domingo:
“[…] deveríamos votar em Bolsonaro para não sermos impedidos de pregar amanhã.” (fiel anônimo apud FOLHA DE S.PAULO apud GAZETA DE SÃO PAULO, 2022) [37]
Essa teologia e essa prática são um erro antes de ser um perigo. Jesus recusou o reino que lhe foi oferecido no deserto e disse a Pilatos que seu reino não era deste mundo. Uma teologia que transforma a missão em plano de ocupação do Estado inverte o Evangelho a que diz servir. Mas o ponto deste ensaio é outro: além de errada, ela é suicida. Nenhuma igreja que tomou o Estado manteve o povo.
A pesquisa de Victor Araújo (Universidade de Reading) e Valeria Rainero (Universidade de Frankfurt) [4], com 1.514 brasileiros maiores de 18 anos, incluiu na pergunta sobre religião a alternativa “Evangélico(a), mas NÃO sou membro de nenhuma igreja”. Eles já são 18% do total de evangélicos. Na escala de conservadorismo moral de 0 a 10, os evangélicos ligados a igrejas marcam 7,11 e os desigrejados 5,79. A maioria deles é filha de pais evangélicos e tem até 35 anos: é a segunda geração saindo.
O outro número é de identificação. Um levantamento da Unifesp em parceria com a USP mostra que a proporção de adolescentes brasileiros de 14 a 17 anos que se declaram sem religião foi de 14,3% em 2012 para 20,3% em 2023, um crescimento relativo de 42% em pouco mais de uma década. Aumento mais intenso do que na população geral, em que os sem religião foram de 9% para 12% no mesmo período (UNIFESP; USP apud BERGAMO, 2026) [87, 9].
São os “crentes sem igreja” de Hout e Fischer com sotaque brasileiro, e a frase com que Fischer resumiu os jovens americanos cabe inteira a esse jovem brasileiro de 2026: se religião é isso, me deixem de fora (HOUT; FISCHER, 2014; FISCHER; HOUT, 2009) [45, 35].
Há uma diferença que atrasa, mas não anula, o diagnóstico. O crescimento evangélico brasileiro ainda é alimentado pela conversão de católicos e pela fecundidade, o que mascara a sangria nas estatísticas agregadas. O censo continuará mostrando crescimento enquanto a terceira geração já está saindo pela porta dos fundos. Foi assim no País de Gales entre 1904 e 1960: as igrejas cresciam em número enquanto perdiam os netos.
O que Cristo e os apóstolos previram
Nada disso é novidade para quem lê a Bíblia. O Novo Testamento não imagina uma igreja que perde o povo porque o mundo ficou descrente. Imagina uma igreja que perde o povo porque ela própria se tornou pedra de tropeço. A palavra grega é skandalon, a pedra no caminho que faz cair, e Jesus a usa com uma precisão que incomoda:
“Ai do mundo por causa dos escândalos; porque é necessário que venham escândalos, mas ai daquele homem por quem o escândalo vem!” (Mateus 18,7; BÍBLIA, 2009) [12]
A advertência aos líderes religiosos de sua época é a mais dura de todo o Evangelho, e descreve o que os casos deste ensaio medem: uma religião que, ao ocupar a porta do Estado, impede a entrada no Reino.
“Fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais, nem deixais entrar os que estão entrando.” (Mateus 23,13; BÍBLIA, 2009) [12]
No discurso sobre os últimos tempos, Jesus não prevê perseguição externa como causa do esfriamento, mas a corrupção de dentro:
“E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.” (Mateus 24,12; BÍBLIA, 2009) [12]
Os apóstolos repetem o diagnóstico. Paulo, escrevendo aos judeus de Roma que se orgulhavam da Lei enquanto a violavam, cita Isaías para dizer que o mau testemunho dos crentes é a causa direta da descrença dos de fora:
“O nome de Deus é blasfemado entre os gentios por causa de vós.” (Romanos 2,24; BÍBLIA, 2009) [12]
Pedro, falando dos falsos mestres que se levantariam dentro da igreja, movidos por ganância, diz o mesmo:
“Muitos seguirão as suas dissoluções, pelos quais será blasfemado o caminho da verdade.” (2 Pedro 2,2; BÍBLIA, 2009) [12]
E Paulo a Timóteo nomeia o pecado específico de uma religião que vira negócio e poder, descrevendo homens corrompidos de entendimento que tratam a piedade como fonte de lucro (1 Timóteo 6,5; BÍBLIA, 2009) [12]. O Apocalipse fecha o ciclo com a carta à igreja de Éfeso: ortodoxa, trabalhadora, intolerante com o erro, e ainda assim ameaçada de ter o castiçal removido do seu lugar por ter abandonado o primeiro amor (Apocalipse 2,4-5; BÍBLIA, 2009) [12].
Skandalon brasileiro
O Brasil de 2026 oferece o material para o escândalo em abundância.
Segundo entrevista publicada pelo jornal Correio da Manhã em agosto de 2026, o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, declarou apoio a Flávio Bolsonaro e afirmou que “Lula não engana mais os evangélicos”, colocando-se, como costuma fazer em suas manifestações públicas, na posição de porta-voz de um bloco inteiro (CORREIO DA MANHÃ, 2026) [24].
De acordo com reportagem de O Globo reproduzida pela Folha de Pernambuco, os deputados Marco Feliciano e Cezinha de Madureira (PL), ambos pastores assembleianos, cobraram publicamente de Flávio o cumprimento de uma promessa que, segundo eles, Jair Bolsonaro teria feito de reservar a vaga de vice a um nome ligado às igrejas (FOLHA DE PERNAMBUCO; O GLOBO, 2026) [36].
Ainda segundo a imprensa, lideranças como Edir Macedo (Universal), Samuel Ferreira (Assembleia de Deus Madureira) e Robson Rodovalho (Sara Nossa Terra) encabeçam grupos que, conforme reportagem do Intercept Brasil, articulam apoios e candidaturas para ampliar a bancada evangélica no Congresso. A mesma reportagem registra o pastor e deputado Sóstenes Cavalcante conclamando os evangélicos a se unirem “contra a esquerda” (INTERCEPT BRASIL, 2026) [47].
O escândalo propriamente dito também já chegou ao noticiário. Em entrevista ao SBT News em janeiro de 2026, no contexto da CPMI do INSS, a senadora Damares Alves declarou, sem citar nomes:
“Nós estamos identificando igrejas nos esquemas de fraudes aos aposentados.” (DAMARES ALVES apud SBT NEWS, 2026a) [77]
Malafaia respondeu em vídeo nas redes sociais, conforme registraram o Brasil de Fato e o Bandab:
“Ou a senhora dá os nomes, ou é uma leviana linguaruda.” (SILAS MALAFAIA apud BRASIL DE FATO, 2026) [14]
A troca de acusações entre aliados evangélicos, na esteira do caso do Banco Master e do empresário Daniel Vorcaro, ganhou repercussão nacional (BANDAB, 2026) [6]. Registre-se que, até a data deste texto, não há, nas fontes consultadas, notícia de condenação de qualquer dessas lideranças.
Juntos, fatos como estes, tal como noticiados, podem vir a ser o skandalon de Mateus 18 em escala nacional: a geração que cresce vendo seus pastores negociar publicamente cargos e vice-presidências, defender condenados por tentativa de golpe e trocar acusações em público sobre o possível uso de recursos de aposentados aprende, sem que ninguém precise ensinar, que “se religião é isso”, a resposta é a mesma dos jovens americanos.
Igreja Batista da Lagoinha e uma tristeza pessoal
O caso mais completo é o da Igreja Batista da Lagoinha, porque nele a receita inteira cabe numa única igreja. Também é para mim o caso que traz maior tristeza e, em certa medida, frustração. Como batista que foi profundamente influenciado pela música produzida pela IBL no começo dos anos 2000, não poderia ser diferente.
A Lagoinha nasceu em 1957, em Belo Horizonte, como igreja da Convenção Batista Brasileira (CBB). Em 1965, a XXVII Assembleia da CBB aprovou por 912 votos a 60 a resolução que desligava do rol de igrejas cooperantes todas as que haviam sido excluídas das convenções estaduais por identificação doutrinário-prática com o movimento “renovacionista-pentecostal”, entre elas a Lagoinha (CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA, 1965; FOLHA DE TUCURUÍ, 2010) [22, 38].
É importante reforçar: ainda que continue sendo de linha batista e ligada a outra convenção, a IBL não faz parte, desde 1965, da estrutura batista convencional no Brasil.
Isto, todavia, não limitou de forma alguma seu sucesso com as massas.
Sob o pastor Márcio Valadão a partir de 1972, tornou-se uma das igrejas mais influentes do país, com a Rede Super de televisão e o ministério de louvor Diante do Trono, de Ana Paula Valadão. Não seria exagero dizer que a IBL ajudou a moldar a música de culto de quase todo o evangelicalismo brasileiro (DIDAQUE, 2022) [26].
A Lagoinha também foi uma igreja ativa em abrir o púlpito ao bolsonarismo: segundo o Didaque, Jair Bolsonaro participou em 2022 das celebrações dos 50 anos de ministério de Márcio Valadão, e o filho André Valadão, hoje presidente da Lagoinha Global, é descrito pela mesma fonte como uma das vozes públicas mais alinhadas ao ex-presidente (DIDAQUE, 2022) [26].
As denúncias vieram em 2026 e, tal como noticiadas, reúnem os ingredientes bíblicos: dinheiro, luxo e poder. O que segue é o que a imprensa publicou. Trata-se de investigações em curso, portanto ainda não são fatos julgados.
Segundo reportagem do SBT News, um relatório de inteligência financeira do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras):
“[…] aponta que o Banco Master fez uma transação de R$ 3,89 milhões […]” (SBT NEWS, 2026b) [78]
O destino, ainda segundo a reportagem, foi a Amando Vidas Produtora e Gravadora Ltda., descrita como ligada ao pastor André Valadão, entre março e abril de 2022. A empresa afirmou não ter conhecimento da operação e o pastor negou (SBT NEWS, 2026b) [78]. O jornal O Sul e a Gazeta do Povo noticiaram o mesmo relatório (O SUL, 2026; GAZETA DO POVO, 2026) [64, 40]. Já a fintech Clava Forte Bank, fundada por Valadão no mesmo endereço da igreja, é descrita pelo Congresso em Foco como investigada pela CPMI e pela Polícia Federal por suspeitas de envolvimento nos desvios de descontos associativos do INSS e na fraude atribuída ao controlador do Banco Master (CONGRESSO EM FOCO, 2026) [21].
De acordo com o Congresso em Foco e o portal O Fator, a Fundação Oásis, braço social da igreja, recebeu R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares do senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da CPMI do INSS. O ministro Flávio Dino, do STF, cobrou esclarecimentos do senador e do Senado e, depois de recebê-los, considerou as explicações “genéricas” e “abstratas”, apontando falta de transparência nos repasses. Viana reconheceu a destinação das emendas, mas negou irregularidades (CONGRESSO EM FOCO, 2026; O FATOR, 2026) [21, 63]. No mesmo período, segundo a Gazeta do Povo, a igreja fechou o templo de alto padrão inaugurado em 2024 em Belo Horizonte, voltado ao público de alta renda:
“O aluguel mensal custava cerca de R$ 420 mil […]” (GAZETA DO POVO, 2026) [40]
Em 22 de março de 2026, conforme o Portal de Prefeitura e a Gazeta do Povo, André Valadão divulgou um vídeo às unidades da igreja em que negou qualquer envolvimento com o Banco Master, colocou-se à disposição para esclarecer os fatos e pediu perdão aos fiéis:
“Eu peço perdão aqui a você, por ter confiado em pessoas […]” (ANDRÉ VALADÃO apud PORTAL DE PREFEITURA, 2026c) [72]
É justo registrar que a negativa é dele, que em outra ocasião ele declarou nunca ter sido “bolsonarista” (CONGRESSO EM FOCO, 2026) [21], e que nada, até aqui, foi decidido pela Justiça.
A reação de dentro da Lagoinha foi a que o Novo Testamento prevê. Em abril, segundo o Portal de Prefeitura, o pastor Luiz Fernando de Souza, da unidade de São Leopoldo (RS), anunciou em carta aberta o desligamento de sua igreja após catorze anos na denominação, apontando o que chamou de disparidades na gestão financeira da Lagoinha Global:
“[…] um pastor conhecido recebia cerca de um milhão de salário por mês […]” (LUIZ FERNANDO DE SOUZA apud PORTAL DE PREFEITURA, 2026a) [70]
A cifra é uma denúncia dele, não um dado verificado. Até o fechamento daquela matéria, a Lagoinha Global e André Valadão não haviam se manifestado (PORTAL DE PREFEITURA, 2026a) [70].
Levantamento publicado pela Revista Fórum aponta que cerca de 70 igrejas teriam rompido com a rede desde 2025, em protesto contra os repasses obrigatórios de 10% à rede global e 5% às instâncias regionais e contra as ligações noticiadas com o caso do Banco Master. A expansão acelerada que era o símbolo da denominação deu lugar à fragmentação (REVISTA FÓRUM, 2026) [75].
Enquanto isso, segundo o Portal de Prefeitura e a Gazeta do Povo, Valadão colocava à venda uma mansão em Orlando, nos Estados Unidos, avaliada em cerca de US$ 1,7 milhão (PORTAL DE PREFEITURA, 2026b; GAZETA DO POVO, 2026) [71, 40].
Uma igreja que começou expulsa da convenção por excesso de Espírito chega, sessenta anos depois, a ser investigada por suspeitas ligadas a dinheiro. Se as denúncias se confirmarem, será 1 Timóteo 6,5 com CNPJ. E é, em miniatura, o que este ensaio diz do evangelicalismo inteiro: a Lagoinha não está perdendo igrejas cooperantes porque elas ficaram descrentes, está perdendo porque seus próprios pastores já não a reconhecem.
A fé que não sobrevive ao espelho
Há algo surpreendente nos casos históricos percorridos, e vale parar nele.
Em nenhum deles a secularização veio de uma perseguição, de uma derrota intelectual ou de um ateísmo militante. Veio do simples contato.
Na Inglaterra e no País de Gales, bastou que a emancipação dos anos 1960 (trabalho fora de casa, pílula, divórcio) oferecesse às mulheres identidades que não passavam mais pela piedade e pela obrigação de transmitir a fé (BROWN, 2001) [15].
No Quebec, bastou o Estado assumir a escola e o hospital para que a prática caísse pela metade em dez anos (LEARN QUÉBEC, s.d.) [52].
Na Holanda, bastou um canal de televisão mostrando outras possibilidades de se viver (KENNEDY, 2010) [50].
Na Espanha, bastaram o turismo e o desenvolvimento dos anos 1960 para que a secularização começasse, disfarçada, ainda sob o próprio Franco (GIL-GIMENO et al., 2025) [41].
Na Irlanda, bastou que os relatórios Ryan e Murphy pusessem a Igreja diante do próprio retrato para que dois referendos a derrotassem (RTÉ, 2018; THE IRISH TIMES, 2018) [76, 85].
Em todos os casos, a fé não foi vencida por um adversário: foi exposta a outras formas de viver, olhou-se no espelho e esmoreceu.
A sociologia tem um nome para isso. Peter Berger chamou de “estruturas de plausibilidade” o conjunto de instituições, rotinas e consensos que fazem uma crença parecer óbvia a quem a professa. E mostrou também que o pluralismo, ao pôr lado a lado visões de mundo que se contradizem, converte toda fé herdada em escolha, e toda escolha em algo que precisa de razões (BERGER, 1985; BERGER, 1979) [11, 10].
Uma religião que nunca precisou dar razões, porque o Estado, a escola e a vizinhança as davam por ela, chega ao pluralismo sem músculo. Não é que o pluralismo refute a fé. É que a fé, acostumada a não ser perguntada, não sabe responder.
O que esse padrão revela não é a força do secularismo, mas a fraqueza do que ele encontrou: uma fé rasa, transmitida por hábito e sustentada por monopólio, que tem dificuldade em lidar com perguntas e contradições e que, sem a proteção ativa do Estado e da identidade cultural, falha. Jesus descreveu esse tipo de fé numa parábola que as igrejas costumam comumente aplicar apenas aos outros:
“Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição por causa da palavra, logo se ofende.” (Mateus 13,21; BÍBLIA, 2009) [12]
A prova inversa está nos mesmos casos. A religião sobreviveu melhor exatamente onde não foi protegida. Veja a igreja primitiva, sem nenhum Estado a seu favor durante três séculos, cresceu justamente porque foi obrigada a dar razões. Pedro fez disso um mandamento:
“Estando sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós.” (1 Pedro 3,15; BÍBLIA, 2009) [12]
Isso devolve a questão ao Brasil com uma ironia que o bolsonarismo evangélico parece não perceber. O evangelicalismo brasileiro cresceu de cerca de 5% da população em 1970 para quase 27% em 2022 sem nenhum favor do Estado, e contra o monopólio cultural de uma Igreja católica que o tinha. Cresceu porque tinha de convencer, porque cada convertido era uma pergunta respondida e porque dava resposta imediata a necessidades das populações que encontrava.
A teologia do domínio propõe trocar exatamente isso pela proteção oficial: currículo, moral pública, símbolos de Estado e poder político. Mas uma fé que exige o Estado e o poder político para se alicerçar está confessando que não se sustenta sozinha.
Quem viu isso com muita clareza foi o pastor batista Roger Williams, expulso de Massachusetts em 1635 por defender a liberdade de consciência. Fundou em Providence, em 1638, a primeira igreja batista da América. Em 1644, respondendo ao pastor John Cotton, que defendia o direito do governo civil de punir a heresia, Williams escreveu que Deus havia plantado a igreja como um jardim no meio do deserto do mundo, e que toda vez que a igreja derrubou a cerca para se misturar ao mundo, Deus a devolveu ao deserto. O raciocínio inteiro está num único período, de onde Thomas Jefferson tomaria emprestada, um século e meio depois, a imagem do muro:
“[…] a igreja dos judeus sob o Antigo Testamento, no tipo, e a igreja dos cristãos sob o Novo Testamento, no antítipo, eram ambas separadas do mundo; e, quando abriram uma brecha na cerca ou muro de separação entre o jardim da igreja e o deserto do mundo, Deus sempre derrubou o próprio muro, removeu o castiçal etc., e fez do seu jardim um deserto, como até hoje. E, portanto, se um dia lhe aprouver restaurar o seu jardim e paraíso, ele terá necessariamente de ser murado, à parte do mundo, para Si mesmo; e todos os que hão de ser salvos do mundo devem ser transplantados do deserto do mundo e acrescentados à sua igreja ou jardim.” (WILLIAMS, 1644, apud WILLIAMS, 1963, v. 1, p. 392, tradução nossa) [93]
Repare na lógica: o muro não é uma concessão ao mundo, é a condição para que a igreja continue sendo jardim. Cada brecha aberta pela própria igreja termina com Deus derrubando o muro inteiro e removendo o castiçal, a mesma imagem de Apocalipse 2,5 que apareceu acima. O argumento de Williams não era, portanto, como hoje se lê, uma proteção do Estado contra a igreja. Era o contrário: uma proteção da igreja contra o Estado.
O muro existe para que o jardim não vire deserto. Para que a fé não se corrompa ao se encostar no poder e não se torne o que Williams via na Inglaterra e em Massachusetts: uma religião de obrigação, cumprida por medo do governo civil e, por isso mesmo, vazia.
É exatamente o diagnóstico que os casos deste ensaio confirmam quatro séculos depois:
a fé protegida pelo Estado e que usa a estrutura político-partidária para sobreviver é a que morre primeiro.
Uma fé sempre em reforma
Resta uma pergunta que todo cristão sincero fará ao chegar aqui: existe, então, um cristianismo vibrante e sem Estado que tenha durado? A resposta honesta é que existe, mas é raro. São os casos de grupos menores como valdenses, menonitas e morávios (CAMERON, 2000; WILLIAMS, 1992; ATWOOD, 2009) [16, 92, 5].
Há ainda casos mais resistentes, mas não que necessariamente tenham durado por muitos séculos. São eles a igreja pré-constantiniana (STARK, 1996) [80], os dissidentes ingleses (BEBBINGTON, 1989) [8], a igreja negra americana (LINCOLN; MAMIYA, 1990; CHAPPELL, 2004; PEW RESEARCH CENTER, 2021b) [53, 19, 68], o protestantismo chinês (PEW RESEARCH CENTER, 2023) [69] e o próprio pentecostalismo latino-americano (MARTIN, 1990) [56]. Todos têm em comum a independência do Estado e algum grau de estigma social ou perseguição atrelado.
Já a maioria dos movimentos grandes e livres (metodistas, batistas, pentecostais) duraram em intensidade de cem a duzentos anos. E tanto a pesquisa especializada quanto a teologia wesleyana nos ajudam a entender por quê.
H. Richard Niebuhr descreveu em 1929 o que chamou de ciclo seita–igreja: todo movimento religioso vital nasce marginal, intenso e exigente. Em duas ou três gerações prospera, educa os filhos, ganha respeitabilidade, forma clero e vira “igreja institucionalizada”, acomodada e com menos vitalidade. Os que não se reconhecem mais nela fundam uma organização nova (NIEBUHR, 1929) [60].
Resumindo: novos movimentos são o que dão impulso e refrigério a antigas igrejas. Reformando-as ou fundando novas expressões de fé.
John Wesley previu o ciclo antes de Niebuhr nomeá-lo. Em 1786, olhando para o próprio metodismo, escreveu que a religião verdadeira produz diligência e frugalidade, que estas produzem riqueza, e que a riqueza produz orgulho e amor ao mundo:
“Não vejo como seja possível, na natureza das coisas, que um avivamento da religião verdadeira dure muito tempo.”(WESLEY, 1786, tradução nossa) [90]
Roger Finke e Rodney Stark mediram o ciclo nos Estados Unidos com dados de filiação desde 1776. A conclusão dos autores é que os Estados Unidos são mais religiosos que seus pares no Norte global não por causa do passado puritano, mas porque têm um mercado religioso livre, sem igreja de Estado, em que novas seitas substituem continuamente as igrejas acomodadas (FINKE; STARK, 2005) [34].
A sequência histórica é esta: os puritanos da Nova Inglaterra viraram a igreja congregacional, estabelecida e acomodada. Ao lado dela, episcopais (os anglicanos americanos) e presbiterianos eram as outras igrejas coloniais de elite, e em 1776 as três reuniam 55% dos membros de igreja do país.
Contra elas cresceram as “seitas” de pregadores itinerantes, metodistas e batistas, que em 1850 já tinham os mesmos 55%, enquanto as igrejas coloniais caíam para 19%. Quando os metodistas se acomodaram (seminários, clero assalariado, respeitabilidade), foram ultrapassados pelos batistas.
Quando os batistas se acomodaram, vieram as igrejas do movimento holiness e os pentecostais. Por fim, veio a infinidade de denominações que hoje tratamos sob o nome “evangélicos” (FINKE; STARK, 2005) [34].
É o processo de reforma constante que dá vitalidade à fé. E a vitalidade surge justamente a despeito do Estado e da política. Não por causa deles. A comparação internacional confirma: quanto mais o Estado regula uma religião ou favorece uma igreja, menor a liberdade e a vitalidade religiosas (GRIM; FINKE, 2006) [43].
O ciclo tem uma premissa escondida, e é nela que o Brasil pode quebrar. Em todos os ciclos de Niebuhr a renovação vem de dentro: os deserdados saem da igreja acomodada para outra igreja, mais viva, e a crítica é feita em nome de Jesus. Mas isso só funciona enquanto a marca “cristão” ainda atrai quem sai, enquanto o jovem acha que o problema é aquela igreja, não a igreja.
Nos Estados Unidos recentes, a marca “evangélico” se fundiu a tal ponto com o Partido Republicano que o jovem de fora do partido não viu alternativa cristã, e a saída, que no século XIX era lateral (de metodista para batista), virou vertical (de evangélico para “nada em particular” ou “desigrejado”) (HOUT; FISCHER, 2014) [45].
É isso que os dois dados brasileiros já apresentados medem.
Os adolescentes sem religião do levantamento da Unifesp são a saída vertical: não estão trocando de igreja, estão saindo da categoria (BERGAMO, 2026) [9]. Para eles o problema não é a Lagoinha nem Malafaia: é “religião evangélica”.
Já os desigrejados de Araújo e Rainero são a saída lateral: continuam se dizendo evangélicos e, em boa parte, buscam ressignificar a fé, não abandoná-la (ARAÚJO; RAINERO, 2026) [4]. É o ciclo funcionando como Niebuhr descreveu, e é dessa população que sairá a próxima renovação, se houver.
Mas, caso este movimento de reforma exista, ele conseguirá espaço num ambiente cujo monopólio da fé é regido por igrejas partidarizadas e aliadas ao bolsonarismo estridente? A razão em mim diz que não. O Espírito Santo falando em meu coração diz que Ele e somente Ele pode decidir isto.
A alternativa: enraizados em Jesus
Se o diagnóstico está certo, a alternativa não é o silêncio político nem a fuga para o deserto. É a distinção, que o protestantismo livre conheceu e esqueceu, entre a igreja que testemunha e a igreja que governa. Nenhuma das sociedades do quadro se afastou necessariamente de Jesus: afastaram-se de uma igreja que havia se tornado outra coisa.
Se quisermos poupar as futuras gerações evangélicas de um profundo trauma seguido de um profundo secularismo, o caminho não é defender melhor o poder. É devolver a igreja ao solo de onde ela brotou.
Esse solo tem três camadas, e a escritora americana Rachel Held Evans, que saiu do fundamentalismo sem sair da fé, descreveu as três melhor do que ninguém em minha geração.
A primeira camada são os valores de Jesus. Não a moral pública que as capelas galesas e os bispos irlandeses impuseram a quem não a professava, mas o que o próprio Jesus escolheu para dizer quem é dele: dar de comer, vestir, visitar o preso, acolher o estrangeiro (Mateus 25,35-40; BÍBLIA, 2009) [12].
Evans, no texto que a tornou conhecida, dizia que o que a geração dela queria da igreja não era mudança de estilo, mas de substância: uma trégua entre fé e ciência, lealdade ao Reino de Deus acima da lealdade a um partido. E que os jovens não saíam porque a igreja não era descolada o suficiente, “legal” o suficiente, mas porque não encontravam Jesus nela (EVANS, 2013a) [30].
Uma fé pautada nos valores de Jesus não precisa do Estado, porque a mesa a que ela convida não cabe num decreto.
A segunda camada é a experiência com Jesus, e não a experiência com a instituição. O que os desigrejados brasileiros ou americanos e os “católicos no seu secularismo” do Quebec têm em comum é que continuam crendo em Deus depois de abandonar a igreja (HOUT; FISCHER, 2014; ARAÚJO; RAINERO, 2026; JENKINS, 2021) [45, 4, 49].
Saíram da igreja, não necessariamente de Jesus. Evans respondeu à própria geração com um segundo texto, sobre por que ela ainda precisava da igreja: sete razões, cada uma correspondendo a um sacramento, porque o que essa geração procura não é um partido nem um programa, é o pão partido, a água do batismo, a mão sobre o doente, a presença (EVANS, 2013b) [31]. Lucas conta que os discípulos de Emaús só reconheceram o Ressuscitado quando ele partiu o pão, e que a pergunta que fizeram depois é a única que importa:
“Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava?” (Lucas 24,32; BÍBLIA, 2009) [12]
Ou como bem diria o teólogo alemão Karl Barth em 1934, diante de uma igreja protestante que havia se fundido ao regime nazista e proclamava um “Cristo alemão”:
“Jesus Cristo, tal como nos é testemunhado na Sagrada Escritura, é a única Palavra de Deus que devemos ouvir, em que devemos confiar e a que devemos obedecer na vida e na morte.” (BARTH et al., 1934, tese 1, tradução nossa) [7]
A tese de Barth rejeita como falsa doutrina que a igreja possa reconhecer, ao lado dessa Palavra, “outros acontecimentos e poderes, figuras e verdades” como revelação de Deus. Não há uma nação, um líder, um partido ou uma ideologia que seja uma segunda palavra de Deus: Ele é o Messias, e Ele apenas.
A terceira camada é a capacidade de fazer perguntas sinceras sem respostas prontas, e aqui está o antídoto direto para a fé rasa que os casos deste ensaio revelaram. A fé que morre no primeiro espelho é a que nunca pôde perguntar. Evans, criada num fundamentalismo que tinha resposta para tudo, contou em Faith Unraveled como a fé dela só sobreviveu quando aceitou não ter resposta para quase nada, e como a dúvida, longe de ser o oposto da fé, era o que a mantinha viva (EVANS, 2014) [32].
O próprio Jesus, nos Evangelhos, faz centenas de perguntas e responde diretamente a pouquíssimas. A pedagogia dele é a pergunta, não a resposta pronta (COPENHAVER, s.d.) [23]. Uma igreja que proíbe a pergunta está confessando que não confia na sua própria capacidade de continuar crendo diante das incertezas. Evans resumiu sua fé numa frase que serve de teste para qualquer espiritualidade, inclusive a nossa:
“Sou cristã porque a história de Jesus ainda é a história pela qual estou disposta a arriscar estar errada.” (EVANS, 2014, tradução nossa) [32]
É esse o cristianismo que sobrevive ao espelho. Não o que precisa do Estado ou da cultura para não ser perguntado, mas o que pode ser perguntado porque tem Jesus, e não o poder, como resposta.
Os valores dEle, a experiência com Ele e a liberdade de duvidar dEle são as três coisas que nenhum partido pode oferecer e nenhum escândalo pode tirar.
O bolsonarismo evangélico está trocando as três por uma vaga de vice. A história já disse quanto vale a troca. A Bíblia já disse o que acontece com o castiçal. Resta ao evangelicalismo brasileiro decidir se quer ser lembrado como o movimento que converteu um país sem nenhum favor do Estado, ou como o que perdeu os próprios filhos para ganhar o poder do Estado por meio de um movimento político que muito pouco tinha a ver com Jesus.
Referências
[1] AFFÄRSVÄRLDEN. Huset som Gud tömde. Stockholm, [s.d.]. Disponível em: https://www.affarsvarlden.se/artikel/huset-som-gud-tomde-6723486. Acesso em: 12 out. 2026.
[2] AL JAZEERA. Lula appeals to Brazil’s evangelicals before second round vote. Doha, 19 out. 2022. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2022/10/19/lula-appeals-to-brazils-evangelicals-before-second-round-vote. Acesso em: 12 out. 2026.
[3] ALVES, José Eustáquio Diniz. O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro em 2018. Diário do Centro do Mundo, 1 nov. 2018. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-voto-evangelico-garantiu-a-eleicao-de-jair-bolsonaro-em-2018-por-jose-eustaquio-diniz-alves/. Acesso em: 12 out. 2026.
[4] ARAÚJO, Victor; RAINERO, Valeria. Evangélicos desigrejados no Brasil: pesquisa com 1.514 adultos. Reading; Frankfurt: University of Reading; Goethe-Universität, 2026. Divulgação: Metrópoles, 24 set. 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/sao-paulo/evangelico-desigrejado-menos-conservador-mostra-estudo. Acesso em: 12 out. 2026.
[5] ATWOOD, Craig D. The theology of the Czech Brethren from Hus to Comenius. University Park: Penn State University Press, 2009.
[6] BANDAB. Malafaia, Damares, Valadão: a cúpula evangélica rachada na largada de 2026. Curitiba, jan. 2026. Disponível em: https://www.bandab.com.br/?p=1835259. Acesso em: 12 out. 2026.
[7] BARTH, Karl et al. Declaração Teológica de Barmen. Sínodo Confessional da Igreja Evangélica Alemã, Barmen, 31 maio 1934. Disponível em: https://www.ekd.de/en/The-Barmen-Declaration-303.htm. Acesso em: 12 out. 2026.
[8] BEBBINGTON, David W. Evangelicalism in modern Britain: a history from the 1730s to the 1980s. London: Unwin Hyman, 1989.
[9] BERGAMO, Mônica. 20% dos adolescentes brasileiros não têm religião. BandNews FM, 6 abr. 2026. Disponível em: https://www.band.com.br/bandnews-fm/noticias/monica-bergamo-20-dos-adolescentes-brasileiros-nao-tem-religiao-202604060835. Acesso em: 12 out. 2026.
[10] BERGER, Peter L. The heretical imperative: contemporary possibilities of religious affirmation. Garden City: Anchor, 1979.
[11] BERGER, Peter L. O dossel sagrado: elementos para uma teoria sociológica da religião. São Paulo: Paulus, 1985.
[12] BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: Almeida Revista e Corrigida. Barueri: SBB, 2009. Disponível em: https://www.bibliaonline.com.br/arc. Acesso em: 12 out. 2026.
[13] BISSIATI, Edson Lugatti Silva. Populismo e religião: governo Bolsonaro e a sua relação com os evangélicos (2019–2022). O Público e o Privado, Fortaleza, 2025. Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/opublicoeoprivado/article/download/15073/13257/68284. Acesso em: 12 out. 2026.
[14] BRASIL DE FATO. Malafaia diz que Damares é “linguaruda” por denunciar igrejas em fraudes no INSS. São Paulo, 15 jan. 2026. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2026/01/15/malafaia-diz-que-damares-e-linguaruda-por-denunciar-igrejas-em-fraudes-no-inss/. Acesso em: 12 out. 2026.
[15] BROWN, Callum G. The death of Christian Britain: understanding secularisation 1800–2000. London: Routledge, 2001.
[16] CAMERON, Euan. Waldenses: rejections of Holy Church in medieval Europe. Oxford: Blackwell, 2000.
[17] CARTACAPITAL. 16% dos evangélicos afirmam que pastores orientam votos em Bolsonaro, diz Datafolha. São Paulo, 27 out. 2022. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/?p=306125. Acesso em: 12 out. 2026.
[18] CHAMBERS, Paul. Out of taste, out of time: the future of Nonconformist religion in Wales in the twenty-first century. Contemporary Wales, Cardiff, [s.d.]. Disponível em: https://pure.southwales.ac.uk/en/publications/out-of-taste-out-of-time-the-future-of-nonconformist-religion-in-/. Acesso em: 12 out. 2026.
[19] CHAPPELL, David L. A stone of hope: prophetic religion and the death of Jim Crow. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2004.
[20] CHURCH GROWTH MODELLING. The 1904/5 Welsh revival. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: https://churchmodel.org.uk/?p=198. Acesso em: 12 out. 2026.
[21] CONGRESSO EM FOCO. Dino cobra explicações de Carlos Viana sobre emendas à Igreja Lagoinha. Brasília, 19 mar. 2026. Disponível em: https://www.congressoemfoco.com.br/noticia/117387/dino-cobra-explicacoes-de-carlos-viana-sobre-emendas-a-igreja-lagoinha. Acesso em: 12 out. 2026.
[22] CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA. Ata da XXVII Assembleia: resolução sobre o desligamento das igrejas identificadas com o movimento renovacionista-pentecostal. Niterói, 1965.
[23] COPENHAVER, Martin B. Jesus is the question. United Church of Christ, Daily Devotional, [s.d.]. Disponível em: https://www.ucc.org/?p=118574. Acesso em: 12 out. 2026.
[24] CORREIO DA MANHÃ. Entrevista: Silas Malafaia. Rio de Janeiro, 21 ago. 2026, p. 2. Disponível em: https://digital.correiodamanha.com.br/jornalcorreiodamanha/2026/08/21/2202b1/pdf/2108cmanha02.pdf. Acesso em: 12 out. 2026.
[25] DATAFOLHA. Intenção de voto para presidente: 2º turno, 24–25 out. 2018. Registro TSE BR-05743/2018. Disponível em: https://www.cesop.unicamp.br/vw/1Isv3T60wNQ_MDA_9be89_. Acesso em: 12 out. 2026.
[26] DIDAQUE. Lagoinha, o mais recente púlpito de Bolsonaro. 2022. Disponível em: https://didaque.substack.com/p/lagoinha-o-mais-recente-pulpito-de. Acesso em: 12 out. 2026.
[27] DJUPE, Paul A.; NEIHEISEL, Jacob R.; SOKHEY, Anand E. Reconsidering the role of politics in leaving religion: the importance of affiliation. American Journal of Political Science, v. 62, n. 1, p. 161–175, 2018. Disponível em: https://ideas.repec.org/a/wly/amposc/v62y2018i1p161-175.html. Acesso em: 12 out. 2026.
[28] ESTADO DE MINAS. Pastores fazem pressão por voto e ameaçam fiéis com punição divina. Belo Horizonte, 19 out. 2022. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2022/10/19/interna_politica,1409046/pastores-fazem-pressao-por-voto-e-ameacam-fieis-com-punicao-divina.shtml. Acesso em: 12 out. 2026.
[29] EVANGELICAL FOCUS. Spain, less Catholic and more atheistic, agnostic and indifferent. 20 ago. 2024. Disponível em: https://evangelicalfocus.com/europe/27876/spain-less-catholic-and-more-atheistic-agnostic-and-indifferent. Acesso em: 12 out. 2026.
[30] EVANS, Rachel Held. Why millennials are leaving the church. CNN Belief Blog, 27 jul. 2013a. Disponível em: https://religion.blogs.cnn.com/2013/07/27/why-millennials-are-leaving-the-church/. Acesso em: 12 out. 2026.
[31] EVANS, Rachel Held. Why millennials need the church. CNN Belief Blog, 3 ago. 2013b. Disponível em: https://religion.blogs.cnn.com/2013/08/03/why-millennials-need-the-church/. Acesso em: 12 out. 2026.
[32] EVANS, Rachel Held. Faith unraveled: how a girl who knew all the answers learned to ask questions. Grand Rapids: Zondervan, 2014. Publicado originalmente como Evolving in Monkey Town (2010).
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[63] O FATOR. Dino considera “genéricas” e “abstratas” explicações de Viana sobre emendas e abre ação própria sobre o caso no STF. Belo Horizonte, 2026. Disponível em: https://ofator.com.br/?p=60569. Acesso em: 12 out. 2026.
[64] O SUL. Líder da Igreja Lagoinha pede desculpas a fiéis por ligação com Banco Master. Porto Alegre, 28 mar. 2026. Disponível em: https://www.osul.com.br/lider-da-igreja-lagoinha-pede-desculpas-a-fieis-por-ligacao-com-banco-master/. Acesso em: 12 out. 2026.
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[69] PEW RESEARCH CENTER. Measuring religion in China. Washington, 30 ago. 2023. Disponível em: https://www.pewresearch.org/religion/2023/08/30/measuring-religion-in-china/. Acesso em: 12 out. 2026.
[70] PORTAL DE PREFEITURA. Crise na Lagoinha: pastor rompe com André Valadão e denuncia salário de R$ 1 milhão na cúpula. 4 abr. 2026a. Disponível em: https://portaldeprefeitura.com.br/religiao/crise-lagoinha-denuncia-salario-pastor-andre-valadao/618417/. Acesso em: 12 out. 2026.
[71] PORTAL DE PREFEITURA. Em meio à crise na Lagoinha, pastor André Valadão anuncia venda de mansão de US$ 1,7 milhão nos EUA. 2026b. Disponível em: https://portaldeprefeitura.com.br/religiao/em-meio-a-crise-na-lagoinha-pastor-andre-valadao-anuncia-venda-mansao/617776/. Acesso em: 12 out. 2026.
[72] PORTAL DE PREFEITURA. Líder da Igreja Lagoinha, André Valadão nega envolvimento com escândalo do Banco Master. 2026c. Disponível em: https://portaldeprefeitura.com.br/brasil/lider-da-igreja-lagoinha-andre-valadao-nega-involvimento-com/617618/. Acesso em: 12 out. 2026.
[73] PUTNAM, Robert D.; CAMPBELL, David E. American grace: how religion divides and unites us. New York: Simon & Schuster, 2010.
[74] RENNÓ, Lucio. The Bolsonaro voter: issue positions and vote choice in the 2018 Brazilian presidential elections. Latin American Politics and Society, v. 62, n. 4, p. 1–23, 2020. Disponível em: https://www.ucis.pitt.edu/clas/sites/default/files/Renno%202020.pdf. Acesso em: 12 out. 2026.
[75] REVISTA FÓRUM. Lagoinha: debandada geral de pastores e pastoras após escândalos. 24 abr. 2026. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/lagoinha-debandada-geral-de-pastores-e-pastoras-apos-escandalos/. Acesso em: 12 out. 2026.
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[78] SBT NEWS. Coaf aponta transação de R$ 3,9 milhões de Master para produtora de Valadão; pastor nega. São Paulo, 13 mar. 2026b. Disponível em: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/economia/andre-valadao-da-lagoinha-recebeu-r-4-milhoes-do-banco-master. Acesso em: 12 out. 2026.
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[80] STARK, Rodney. The rise of Christianity: a sociologist reconsiders history. Princeton: Princeton University Press, 1996.
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[85] THE IRISH TIMES. Ireland’s abortion referendum result in five charts. 26 maio 2018. Disponível em: https://www.irishtimes.com/news/social-affairs/ireland-s-abortion-referendum-result-in-five-charts-1.3509845. Acesso em: 12 out. 2026.
[86] TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Resultados das eleições presidenciais: 2º turno de 2018 e de 2022. Brasília: TSE, 2018; 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br. Acesso em: 12 out. 2026.
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[90] WESLEY, John. Thoughts upon Methodism (1786). In: WESLEY, John. The works of John Wesley. Ed. Thomas Jackson. London: Wesleyan Methodist Book Room, 1872. v. 13. Disponível em: https://www.ccel.org. Acesso em: 12 out. 2026.
[91] WESTIN, Gunnar. The free church through the ages. Nashville: Broadman, 1958.
[92] WILLIAMS, George Huntston. The radical Reformation. 3. ed. Kirksville: Sixteenth Century Journal Publishers, 1992.
[93] WILLIAMS, Roger. Mr. Cotton’s letter lately printed, examined and answered (1644). In: WILLIAMS, Roger. The complete writings of Roger Williams. New York: Russell & Russell, 1963. v. 1, p. 392.
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Todo mundo é um literalista bíblico até que alguém fale sobre a gula
Traduzido e adaptado por Romulo Rodrigues de Carvalho do texto original de Rachel Held Evans, com autorização.

…Ou o divórcio, ou a fofoca, ou a escravidão, ou o uso do véu, ou os ensinamentos de Jesus sobre a não-violência, ou a “abominação” de se comer ostras, ou o pecado digno do fogo do inferno de se chamar outras pessoas de idiotas.
Então precisamos de um pouco de contexto.
Então precisamos de um pouco de graça.
Então precisamos de um pouco de espaço para discordar.
Eu comecei a pensar sobre isso depois que fui criticada na semana passada por causa da minha postagem sobre amar as crianças gays incondicionalmente. Algumas pessoas ficaram muito chateadas que eu tenha tido a audácia de escrever um post inteiro do blog falando sobre a necessidade de se colocar um fim ao bullying contra crianças LGBTs sem incluir sequer uma condenação biblicamente embasada contra pessoas LGBTs, ou pelo menos uma discussão teológica em torno da questão da homossexualidade e das Escrituras.
Versículos da Bíblia foram citados. Cartas abertas foram escritas. Previsões do fim dos tempos foram feitas. Travesseiros em minha casa foram jogados a distâncias recordes.
É engraçado. Ontem, no “Superlativos de Domingo” (série de postagens que a autora publicava regularmente), eu incluí uma citação de Mark Twain na qual ele se referiu a um vendedor de óleo de cobra como “um idiota”, mas ninguém deixou um comentário irritado advertindo-me sobre o fogo do inferno baseado no ensino de Jesus em Mateus 5:22 de que “quem disser ao seu irmão: ‘Você não vale nada’ será julgado pelo tribunal. E quem chamar o seu irmão de ‘idiota’ estará em perigo de ir para o fogo do inferno.”
Também ninguém levantou objeções bíblicas sobre a gula algumas semanas atrás, quando eu casualmente mencionei ter me engajado numa overdose de iogurte cremoso (morango, com uma pilha de chips de chocolate, pedacinhos de Oreo e bolachas de chocolate em formato animais na parte superior, se você se interessar), ou sobre o materialismo quando eu compartilhei fotos de nosso novo carro (ei, para algumas pessoas, um novo Honda Civic pode parecer bastante ostentação.)
E, apesar da enxurrada de e-mails que eu recebo a cada semana condenando o meu apoio à ordenação de mulheres ao ministério, eu nunca recebi algo tão dramático quanto uma carta aberta criticando a minha recusa em usar o véu, apesar de o meu website estar cheio de provas fotográficas daquilo que o apóstolo Paulo chama de “desgraça” em 1 Coríntios 11: 6.
Podemos rir destes exemplos ou achá-los bobos, mas a linguagem bíblica utilizada nesses contextos é na verdade bastante forte: comer ostras é uma abominação, a cabeça de uma mulher sem véu é uma desgraça, fofoqueiros não herdarão o reino de Deus, palavras descuidadas são puníveis com o inferno, rapazes que olharem para mulheres com desejos lascivos devem arrancar seus olhos.
Caramba, você poderia fazer um belo caso bíblico sobre a gula ser um “estilo de vida pecaminoso”, que foi normalizado pela nossa cultura de rodízios e filas transbordantes nos restaurantes self-services, começando com passagens como Filipenses 3:19 (“seu deus é o ventre”), Salmo 78: 18 (“eles tentaram a Deus nos seus corações, pedindo a comida que eles queriam “), Provérbios 23:20 (” não esteja entre os bêbados, nem entre os comilões de carne “), Provérbios 23: 2 (“coloque uma faca na sua garganta se você é dado ao apetite “), ou melhor ainda, Ezequiel 16:49 (“Agora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: ela e suas filhas eram arrogantes, gulosas e despreocupadas, pois elas não ajudaram os pobres e necessitados.”)
No entanto, você não vê reuniões de vigilantes do peso antes dos batismos; ou pessoas segurando placas dizendo “Deus condena os glutões” do lado de fora dos antros de iniquidade que são as churrascarias.
E nós nem sequer tocamos no materialismo, ou no fato de que no dia em que eu enchi minha cara de iogurte cremoso, 30.000 crianças morreram de doenças evitáveis e muitas mais passaram fome.
Parece que quanto mais onipresente a violação bíblica, mais invisível ela se torna.
Então, por que tantos cristãos se concentram nos chamados “versículos gritantes” relacionados à homossexualidade, ignorando os “versículos gritantes” relacionados à gula ou à ganância, ao uso do véu ou ao divórcio? Por que é que a homossexualidade é o grande debate bíblico desta década e não a escravidão (como já foi um dia), ou o crescente problema do materialismo e da desigualdade? Por que tantos defendem que o casamento gay seja ilegal, mas não o divórcio, quando Jesus nunca fez referência ao primeiro, mas falou bastante negativamente sobre o segundo?
Embora existam certamente questões hermenêuticas e culturais importantes em atuação, eu não posso deixar de me perguntar se também não há algo mais nefasto em curso. Eu não posso deixar de me questionar se talvez a condenação bíblica seja muitas vezes um jogo de números.
Embora ela afete mais pessoas do que nós tendamos a perceber, estatisticamente, a homossexualidade afeta muito menos de nós do que a gula, o materialismo, ou o divórcio. E como Jesus disse tantas vezes em seu ministério, nós gostamos de focar nas violações bíblicas (reais ou percebidas) de grupos minoritários, em vez das nossas próprias.
Em suma, nós gostamos atacar em bando. Nós gostamos de produzir armas usando os versos que nos afetam menos e, em seguida, atacamos grupos minoritários com elas. Ou melhor ainda, evocamos alguma linguagem sentimental sobre “falar a verdade em amor” pouco antes de pegar nossas pinças removedoras de ciscos que nos ajudam a desviar nossas mentes das traves desconfortáveis em nossos próprios olhos.
Vemos isso na história dos líderes religiosos que encurralaram a mulher apanhada em adultério. Ela era um alvo tão fácil: uma mulher, provavelmente pobre, sem poder, e culpada do escândalo favorito dos fariseus: o pecado sexual. Quando eles a trouxeram a Jesus, estavam usando-a como um exemplo para testá-lo; para ver quão “bíblica” a resposta dEle seria (veja Deuteronômio 22:14-23). Jesus ajoelhou-se e rabiscou na areia antes de dizer: “Aquele que estiver sem pecado pode atirar a primeira pedra.” Eles deixaram cair suas pedras.
Enquanto evitar o farisaísmo certamente afeta nosso literalismo seletivo, também temos boas razões para não condenarmos uns aos outros pelas violações bíblicas onipresentes (novamente, reais ou percebidas) em nossa cultura.
É difícil para mim simplesmente condenar o divórcio, por exemplo, quando eu conheço várias mulheres cujas vidas e as vidas de seus filhos podem ter sido salvas por ele, ou quando eu ouço pessoas me dizerem que prefeririam ter saído de um lar disfuncional do que ter crescido num. Temos ainda uma repulsa natural à ideia de verificar o Índice de Massa Corporal das pessoas antes de aceitá-las em nossas igrejas, especialmente quando a obesidade não é necessariamente um reflexo da gula, e quando nós sabemos por nossa própria experiência ou pelas experiências daqueles que amamos que um peso não saudável pode resultar de uma variedade de fatores – de componentes genéticos a psicológicos – e quando alguns dos nossos amigos favoritos (ou quando nós mesmos) lutamos com uma relação complicada com a comida, seja através de comer em excesso ou da má alimentação.
Novamente, é um jogo de números. É difícil “outrificar” as pessoas que conhecemos e mais amamos. Parece clichê, mas tudo muda quando é seu irmão ou irmã que se divorcia, quando é o seu filho ou filha que é gay, quando é o seu melhor amigo que luta com algum vício, quando é o seu marido ou esposa fazendo algumas boas perguntas sobre o Cristianismo a respeito das quais você nunca pensou antes. Nossos relacionamentos têm uma tendência de destruir nossas categorias, de derreter o preto e o branco em cinza, e eu não acho que Deus se sinta desapontado ou ameaçado por isso. Acho que Deus espera isso. Foi o que aconteceu a Pedro quando ele encontrou Cornélio e com Felipe quando ele encontrou o eunuco etíope. De repente, torna-se muito mais difícil de rotular seus amigos como “impuros” ou “indignos”.
Afinal, quando Deus se fez carne e habitou entre nós, os religiosos o acusaram de sair com os “pecadores” (até mesmo glutões!) sem nunca perceber que este era o ponto da questão: de que havia apenas “pecadores” com quem sair.
Claro, tudo isso levanta questões sobre quando é certo ou errado “chamar a atenção” para o pecado, e eu confesso que eu não sou boa em resolver isso. Eu sou tão hipócrita quanto qualquer um, julgando aqueles que considero julgadores, com senso de justiça própria, indulgente, fofoqueira, muito descuidada com minhas palavras, muito rápida para ficar com raiva de certas pessoas com certos pontos de vista teológicos, muito facilmente seduzida pelo dinheiro e notoriedade e … por minhas coisas favoritas em todo o mundo … LISTAS DE PRÊMIOS! RECONHECIMENTOS!
Eu também preciso lembrar que, apesar de toda a minha grande conversa sobre a “hermenêutica Cristocêntrica,” mais frequentemente do que pareça, eu estou seguindo uma “hermenêutica Rachelcêntrica” quando leio a Bíblia, com meus próprios preconceitos, preferências, inseguranças e opiniões guiando como eu vou “pegar e escolher” (oh, eu posso manejar cada versículo da Bíblia que desafia o Calvinismo como uma faca, mas eu preferiria não falar sobre como eu estou realmente aplicando o Sermão da Montanha em minha própria vida ou sobre o que eu realmente penso sobre amar os inimigos).
Deveríamos parar de discutir quais instruções bíblicas aplicam-se aos dias de hoje e como devemos aplicá-las? Certamente não. Deveríamos permanecer em silêncio enquanto os vulneráveis são oprimidos e explorados ou enquanto a injustiça e imoralidade permeiam nossa cultura? Não. Será que devemos abandonar as nossas convicções sobre o que a Bíblia diz que é pecado? Não, nem mesmo quando discordamos sobre elas. As perguntas retóricas estão sendo usadas em demasia em postagens de blogs? Sim.
Mas às vezes é bom lembrarmo-nos que, assim como os proprietários de escravos cristãos tinham interesse em interpretar Colossenses 3:22 literalmente, nós também tendemos a “pegar e escolher” aquilo da Bíblia que é melhor para nossa própria vantagem.
E quando fazemos categorias separadas para os “pecadores de verdade”, quando nós reduzimos nossos companheiros humanos a questões teológicas sob constante debate, ao ponto em que eles não podem nem mesmo ouvir que são amados sem alguma ressalva (de “verdade em amor”); quando nossa hermenêutica convenientemente faz dos outros o problema e de nós os heróis, talvez seja o momento de nos sentarmos à mesa e conhecermos uns aos outros um pouco mais, quebrar algumas categorias e fazer novos amigos. Talvez seja o momento de deixar as pedras caírem por um pouco e passar o pão.
… saudável, integral e orgânico, é claro.
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Para saber mais sobre o literalismo seletivo, mas com um toque divertido, confira o meu livro, A Year of Biblical Woomanhood.
Confira o texto original em: https://rachelheldevans.com/blog/literalist-gluttony
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Rachel Held Evans — uma profetiza do começo deste século
Rachel Held Evans foi uma das vozes mais importantes para uma geração de cristãos que começou a descobrir que era possível questionar o evangelicalismo sem abandonar a fé. Com humor, coragem e uma profunda afeição pelas Escrituras, ela enfrentou os limites de uma tradição que conhecia por dentro — e ajudou a abrir espaço para uma fé mais inclusiva, generosa e intelectualmente honesta.
Rachel faleceu em 4 de maio de 2019, com apenas 37 anos. Sua morte precoce interrompeu uma voz que ainda tinha muito a dizer, mas não interrompeu aquilo que talvez tenha sido sua maior contribuição: mostrar a milhares de pessoas que duvidar, perguntar e mudar de ideia não precisam ser o fim da fé.
Este texto é uma tradução autorizada de uma de suas reflexões. Publiquei-o originalmente em 2015, mediante troca de e-mails com a então agente de Rachel. Mais de uma década depois, ele continua pertinente. Trago-o à luz novamente depois de um longo afastamento da escrita pública, período no qual meu blog original permaneceu desativado. Que a reformulação do blog e a republicação deste texto sejam também uma pequena forma de manter a voz de Rachel circulando — e de lembrar que algumas pessoas continuam conversando conosco mesmo depois de partirem.
Conheça o trabalho de Rachel em: https://rachelheldevans.com/about/